FUI GAROTO DE PROGRAMA

Como so as mulheres que procuram os servios de um garoto de programa?
Por que elas buscam um profissional? O que elas desejam? Para desvendar
esse universo, Marie Claire fez o reprter Augusto Fragelli se passar por
garoto de programa. Ele anunciou seus servios em trs jornais de So Paulo,
conversou com dezenas de mulheres, ouviu suas histrias, perguntou sobre
seus desejos e fantasias. E constatou que, mais que de sexo, elas esto a
procura de um namorado, um amigo, um confidente, uma ajuda contra a solido.

Foram trs anncios diferentes, cada um apresentando um nome de garoto de
programa: Felipe, Roberto e Tiago. Felipe se descrevia no Jornal da Tarde
como universitrio superdotado, de porte atltico, que realiza todas as
fantasias sexuais das mulheres. Roberto se definia na Folha de S.Paulo
como carinhoso, para mulheres que buscam sexo com afeto. Tiago aparecia
no O Estado de S.Paulo como um acompanhante para mulheres, de 30 anos,
com boa aparncia e boa frmao cultural.

Cada anncio foi publicado trs vezes. A secretaria eletrnica ligada
no nmero do mesmo telefone divulgado em todos os anncios recebeu
580 chamadas; em 454 delas, as pessoas desligaram sem deixar recado,
e 126 gravaram suas mensagens - 77 mulheres e 49 homens, embora os
anncios dissessem claramente que o garoto se oferecia para programas
com mulheres.

Conversei com 63 pessoas. Algumas mulheres ligaram por curiosidade;
apenas uma das que conheci pessoalmente disse querer apenas sexo.
Logo no primeiro encontro me surpreendi com uma cliente que buscava
o homem da sua vida; a maior parte se mostrou mais carente de afeto
que de sexo. Elas apresentaram pontos em comum: so mulheres
solitrias, que no tem oportunidade de conversar com um amigo sobre
suas prprias vidas; falam muito, e em nenhum momento reclamaram
da quantidade de perguntas que eu fazia. Uma delas chegou a explicar
que gostava de minhas perguntas porque a faziam pensar sobre ela mesma.
Em geral, saram satisfeitas dos encontros-puderam se dedicar a encarar
suas vidas, durante alguns instantes. Meu primeiro encontro foi com
Vera, uma viva de 32 anos que h quatro ensaiava ligar para um garoto
de programas. Finalmente se decidiu por Roberto. Vera vive com as
duas filhas, cursa o segundo colegial a noite e tem um namorado,
dono de um estacionamento, que no provoca nela paixo ou prazer.

-Por que no termina o namoro, ento? - perguntei.

- Sabe como , ele j aprendeu o caminho de casa.

Combinamos um almoo em um restaurante do centro da cidade. Ela avisou
que estaria com blusa, saia e meias brancas. Cumpriu o prometido,
acrescentando apenas um discreto detalhe rosa na blusa de croch.
O cabelo preto, liso e cortado a chanel evidenciava o rosto cheio e
claro. Os primeiros goles no suco de laranja mostraram mos ligeira-
mente trmulas e um exagero de bijuterias.

Aps dez anos com um marido que no a deixava sair de casa, Vera
namora h seis um homem quase sem amigos, repetindo o mesmo isolamento.
A explicaco que encontrei para a continuidade do namoro foi a pequena
mesada do namorado, que complementa a penso de viva. Depois de
algum tempo, ela disse que estava procurando um Popeye. E acrescentou.

-O meu namorado  meio como o Brutus.

-Como assim?

- que o Brutus ama a Olivia Palito, que gosta mesmo  do Popeye.

Vera reclama que, quando se encontra com um homem, ele quer logo
"fazer amor".

Perguntei se ela nunca transou s por atrao e disse logo que no.

-Por que voce me ligou? Sexo, s com garoto de programa?

Disse que sim. Mostrava-se um pouco incomodada, mas quis saber o preo.
Respondi que cobraria como o mercado: US$ 100. Tentou disfarar a decepo.

-Acha caro? - perguntei.

-No.  o mercado!

Ficou algum tempo triste e pensativa. Depois levantou o olhar e argumentou
que poderia ser bom para os dois; disse que eu tambm teria carinho,
poderia gostar e assim no seria necessrio o pagamento. De modo educado,
expliquei que aquele era meu trabalho e que, afinal, eu no era um amigo
dela querendo "fazer amor". Ela ficou um pouco sem graa.

Perguntei se tinha alguma fantasia sexual; nenhuma especfica, disse.
Insisti em saber o que ela esperava do programa.

-Eu gostaria do contato fsico, ficar junto e trocar idias. No precisa
nem de sexo.

No voltamos a nos ver. Antes de me despedir, disse o que Vera j deveria
saber:  ela no estava procurando um garoto de programa, mas o seu Popeye,
e, por isso, eu no poderia ajuda-l.

Com Alice, marquei um encontro em uma lanchonete. Cheguei pouco depois
da hora combinada; o lugar estava quase vazio e no vi nnguem parecido
com a descrio que ela havia dado: 26 anos, cabelo louro e curto, 1 metro
e 66 de altura, olhos castanhos esverdeados e corpo de manequim. Em pouco
tempo ela chegou; me pareceu mais velha e menos vistosa do que prometia
a descrio. No gostei do lugar que havia escolhido, e samos a procura
de outro. Sobre seu busti de jeans ela usava uma jaqueta de couro
preta, curta. Perguntei como se divertia e contou que sua vida se dividia
entre o emprego -  secretria numa grande empresa - e a escola, onde
estuda  noite. Andamos uns cinco quarteires, at que ela sugeriu a
lanchonete onde almoa todos os dias. Gritou o nome de um garom e
pediu framboesa com gua sem gs. Perguntei se saa sempre com garotos
de programa. Contou que era a primeira vez e alertou:
se eu marcasse o encontro em algum motel, ela no iria querer mais nada.
Precisava antes me conhecer, e s em um segundo encontro combinaria
o programa. Ligou para Roberto porque era o nico que dizia no anncio
s atender mulheres.

Alice tem o cabelo tingido de loiro. Os seios so grandes e bastante
expostos pelo busti apertado. Perguntei se havia se vestido assim
especialmente para nosso encontro, e ela disse que costumava trabalhar
de short ou saia; naquele dia, colocou uma cala melhor.

- E o decote, costuma ser to generoso como o de hoje?

-No. Foi pra te encontrar.

Mas logo mudou de assunto: - Escuta, o que deu em voc para viver disso?

- E o que deu em voc para me procurar? O que  que voc quer fazer comigo?

Ficou sem graa e no respondeu. Insisti, e ela disse que no sabia
porque ainda no tinha pensado; queria na verdade, me conhecer.

Antes de se despedir, Alice disse que da prxima vez ligaria para
marcar um programa.

- E o que vai acontecer?

- Ainda no sei, mas no vai ser em nenhum motel.

- Ah, ? E onde vai ser?

- Em uma praia.

- Por que no deixa eu fazer com voc o que eu quiser?

Riu encabulada e surpresa, mas pareceu gostar.

- E o que  que voce vai fazer comigo?

- Tudo!

Sua expresso confirmou que estava gostando. Disse que iria pensar
em alguma fantasia, ou que ento seria como eu propunha. Mas no
voltou a ligar. So tantos os trotes dirigidos aos garotos de programa
que logo adotei algumas precaues. Antes de qualquer encontro, pedia
sempre um telefone para confirmar a hora e o lugar. Muitas vezes
eram garotas adolescentes que se divertiam criando histrias e
personagens, movidas provavelmente por suas prprias fantasias.

Sem dvida Roberta foi a mais divertida. Ligou para Felipe dizendo
estar com uma enorme fome de sexo. Insisti para que deixasse seu telefone,
mas se recusou alegando que poderia ter problemas com seu chefe.
Tinha um jeito eltrico de falar, rpido e ansioso. Disse que era
supergostosa e que transava bem demais: - Eu sou uma cavala! Vou quebrar
a sua perna!

- Mas eu sou muito forte. E se eu quebrar a sua perna?

Riu, parecendo gostar do desafio: - No, eu  que vou quebrar a sua!

- Ah! Voc gosta de uma transa violenta.

- Com certeza!

- Ento voc vai gostar que eu te faa um Ata-me.

- Com certeza, cara!

Mas, diante da proposta para marcarmos um encontro, a decidida Roberta no
se mostrou nada decidida; desconversou, e desligou o telefone depressa.

Flora ligou no incio da segunda semana, quando os trs garotos
de programa j no estavam mais anunciando. Contou que  recepcionista
de uma fbrica de antenas parablicas, e sugeriu que nosso encontro
fosse s seis da tarde, em um bar prximo do seu trabalho.

O lugar era simptico, amplo, com msica ao vivo e pouca luz.
Flora era a mais bonita das mulheres com quem eu tinha me encontrado.
Usava batom vermelho, no abusava das bijuterias; o cabelo era bem tratado,
comprido e liso. Estava com a prometida cala fuseau preta e uma camisa
grande, estampada e folgada. Disse que tinha 29 anos, e que no havia
ligado para Felipe por ele ter anunciado  que era um universitrio
superdotado e de porte atltico; gostou do nome, e pela primeira vez em
sua vida resolveu sair com um garoto de programa.

Logo no comeo da conversa, quis saber a faculdade que eu cursava. Como fiz
com as outras, disse que fazia educao fsica. Contou que gostaria
de estudar psicologia, porque gosta de conhecer pessoas. Achei um pouco
estranho, porque Flora tinha um jeito acanhado.

- Voc sai muito para se divertir?

- No muito. De vez em quando venho aqui. Costumo ficar em casa
ouvindo msica.

- Voc tem muitos amigos?

- No, sou tmida. Quando venho para c, venho sozinha.

Nas vezes em que vai a esse bar - disse -,  incapaz de flertar com
algum homem.  Bebe uma dose de Saint-Remy enquanto observa as pessoas,
quase sempre da mesa onde estvamos.

- Mas ligar para um garoto de programa voc liga.

-  diferente.

- Por que? Por que voc paga?

- No. Porque a pessoa que coloca o nome no jornal j est a fim
de conhecer os outros.

Flora disse que, alm de mais comodo, sair com um garoto de programa
 mais seguro do que com um desconhecido, porque  um profissional,
ainda que tambm seja um estranho.

Quando perguntei por que me procurou, contou o seguinte: ela estava noiva,
com o casamento marcado para da a seis meses, quando o noivo, Ricardo,
um enfermeiro, resolveu acabar com tudo. Ela adorava transar com
Ricardo, e estava sentindo falta. Saram algumas vezes depois de
romper o noivado, mas no foi como antes. Uma vez, em uma praia,
quase transou com um rapaz que havia acabado de conhecer, mas sentiu medo
de alguma violncia na cama. Por isso resolveu me ligar; queria transar
porque achava que depois teria mais facilidade para procurar os homens.

Flora parecia bem segura de que queria, de fato, o programa;
fiquei um pouco preocupado, pois a idia da reportagem era conversar
com as mulheres que procuram um garoto de programa, e no efetivar
o encontro. Assim, disse que cobrava US$300. Ela achou caro demais,
e no voltei a v-la.

Trs mulheres ligaram para Roberto dizendo que estavam noivas mas
no tinham certeza de que deveriam casar. A  que mais se envolveu disse
que se chamava Tnia era dona de uma confeco em um bairro classe
mdia baixa na Zona Norte e estava noiva h dois anos. Contou que
era a primeira vez que ligava para um garoto de programa. A voz
levemente rouca vinha com o cuidado de quem fala escondido. No segundo
telefonema, pediu desculpas e explicou que o noivo estava
por perto.

- Voc6e gosta dele?

- Ele  muito frio.

Explicou que foi por isso que decidiu ligar para um garoto de programa. De
repente, fez um som que no entendi. Pensei que o noivo tivesse entrado.

- O que foi?

- Caiu um boto da minha blusa - a voz era quase ingnua.

- E o que foi que apareceu?

- Um pedao do meu peito.

- E como ele ?

- Durinho!

- Voc gosta dele?

- Gosto. Acho que voc vai gostar.

Vrias vezes Tnia interrompeu a conversa, para ver se o noivo estava
perto. Cada vez mais parecia interessada pela relao que se de-
senvolvia via telefone. Ficou de ligar depois, mas acabou deixando
um recado na secretria eletrnica dizendo que precisou viajar para o
interior e que me procuraria na volta. Mas no ligou mais.

Mnica deixou na secretria eletrnica um recado para Roberto,
com o telefone do seu trabalho. Liguei, e percebi que ela queria
fazer teatro, e no sexo:

- Eu queria provocar cime no meu marido porque ele saiu com uma ex-namorada.

Acabou desistindo da cena, mas contou sua histria. Na verdade, disse,
eles no eram casados, mas namoravam h oito anos. Ela tem 42 anos e
 separada; o namorado, Cludio, tem 53 e vive com a mulher.

Sugeri um encontro; ela pediu que eu fosse ao seu trabalho, pois uma amiga
queria me conhecer. As duas so procuradoras e dividem a mesma sala na
repartio pblica. Quando nos encontramos, a amiga de Mnica, Mrcia,
me chamou a ateno pela beleza. Tem 42 anos, o corpo bem formado,
cabelos loiros, olhos azuis, belos dentes e uma voz agradvel. Vestia
um macaco branco com listras azuis e carregava um pouco nos anis dourados.
Menos vistosa, Mnica usava uma blusa sem mangas cor salmo que combinava
com a pele queimada. Era simptica, mas no falou muito. Mrcia disse
que estava contente:

- Agora as mulheres j podem marcar um programa! Antes eram s os homens 
que podiam.

Mrcia contou que acha timo poder transar sem ter que se envolver
afetivamente. Ficou surpresa quando Mnica contou que havia me ligado,
mas gostou de ver que eu - assim como outro que tinha procurado dias
antes - no correspondia a imagem que ela fazia dos garotos de programa.

- Voc no  desses caras cheios de msculos com quem no d nem para
conversar. Parece um homem normal que eu poderia conhecer em um bar
e ficar conversando.

Bastante animada, falou sobre amigas dela que certamente gostariam
de me conhecer, pois j haviam dito que queriam encontrar um garoto
de programa.

- Voce dana?

- Claro.

- A gente podia te chamar para danar, pagar um tanto;  at menos
desgastante para voc do que fazer um programa. Depois, se alguma de ns
quiser continuar, faz um outro acordo.

Mnica tambm disse gostar de ter algum para danar sem o risco da recusa.

- Mas vocs so mulheres bem bonitas.

- , mas eu morro de medo do cara dizer no! - explicou Mrcia, enquanto
Mnica concordava com a cabea.

Perguntei sobre o marido de Mrcia e ela disse que ele viajava demais.
Como elas no falavam diretamente em sexo, perguntei para Mrcia
se gostaria de fazer algum outro programa.

- Adoro viajar.

- Voc viaja muito?

- No muito, mas gosto de ir para Parati. Gostaria de andar de barco,
mas de repente at a gente dormia em quartos separados.

- Voce falou que muitas vezes a transa com o seu marido  montona.
No pensa em ir pra cama comigo?

- At que poderia ser bom.

Foi o mais especfico que falou. Nosso encontro durou pouco mais de
uma hora, at que elas tiveram que fechar a sala. Mnica despediu-se
com um aperto de mo; Mrcia, com um beijo no rosto. Mas no voltaram
a me procurar.

Nair procurou Felipe porque queria um amigo. Pelo menos foi o que disse.
Contou que tem 21 anos, e secretria, j danou em shows de Afro-Jazz
e tem uma filha de um ano.

- Uma amiga me disse que os melhores amigos so os que fazem esse
tipo de servio.

Mas logo deu demonstraes de que procurava um namorado:

- Voc nunca se apaixonou por uma cliente?

- No.

- E se a gente se apaixonar? Voc pra com esse trabalho?

Achei um pouco forte para quem no conhecia o interlocutor. Logo em seguida,
ela afirmou:

- Eu no acredito mais em amor.

- Quando voce deixou de acreditar?

- Quando o pai da minha filha mandou me matar no hospital, eu grvida
de sete meses, porque no queria ter a filha.

Fui encontrar Nair na sada do seu trabalho.  uma mulata mais bonita
de corpo do que de rosto, embora no seja feia. Tinha nas orelhas
grandes argolas prateadas e usava anis com pedras coloridas. Contou
que mora com dois irmos, a me e o padrasto; s viu o pai uma vez,
quando tinha 7 anos.

Disse que me ligou porque achou Felipe um nome bonito. O incio da
conversa confirmou a impresso deixada no telefonema: Nair queria
um namorado. Chegou a perguntar se eu queria namor-la. Respondi
que muitas clientes tinham o mesmo desejo, mas que no poderia namorar
todas elas. Ficou um pouco em silncio, e depois disse:

- Na verdade eu te procurei porque ando muito carente.

Mais tarde, perguntei se ela teria alguma fantasia para um programa.

- Nenhuma - respondeu.

- Prefere algum lugar especial?

- Queria acampar!

- E o que voce quer fazer?

- Gostaria de transar dentro de uma barraca, ao lado de uma cachoeira.

Pouco antes de nos despedirmos, eu quis saber o maior desejo de sua vida.

- Danar em um palco imenso para 3 milhes de pessoas, no final ser aplaudi-
da e apresentar para todos a minha filha.

Apesar de os anncios nos jornais terem dito claramente que o atendimento
era para mulheres, foram muitos os homens que ligaram. Alguns eram
gays insistindo em ser atendidos; um deles props sexo pelo telefone;
outro era travesti e s no final se identificou; mas diversos telefonaram
querendo programas para suas mulheres.

Eduardo foi um dos primeiros; queria Tiago para satisfazer a fantasia
de assistir a uma transa de sua mulher com outro. A voz sugeria um senhor
idoso; segundo ele, Marta, sua mulher, tinha 67 anos, mas aparentava 25.
Outros homens ligaram pelo mesmo motivo. S um falou da fantasia inversa:
Carlos, um engenheiro de 36 anos, disse que sua mulher queria transar
sendo observada pelo marido. Apesar de constrangido, ele prprio
se encarregou de vender Fernanda: disse que era boa de corpo, tinha
28 anos, e com certeza eu iria gostar.

J nos primeiros dias encontrei quatro recados de Eliana para Roberto.
Por isso estranhei quando liguei e ela falou que no precisava mais:
-  que eu tambm sou garota de programa e liguei pra gente atender
um casal. Voc  o nico que anuncia s para mulheres.

Pediu minha descrio e depois deu a sua. De forma detalhada e
mecanica, construiu em segundos a imagem de uma mulher maravilhosa.
Combinamos um encontro em um bar para acertar uma parceria para atender
a casais. Apesar de morar perto do lugar combinado, disse que iria
com seu Escort vermelho conversvel. O carro no era muito novo nem ela
to maravilhosa. Passeamos por So Paulo ao som de um monlogo de Eliana,
que na verdade - explicou - se chama Teresa. Parece ter mais do que
os 22 anos que disse ter;  um pouco magra e tem a pele mal tratada.
O cabelo loiro  tingido e os dentes so grandes e levemente desalinhados.
Teresa  muito simptica, sorridente e parecia gostar de nosso encontro.
Ela havia dito que era carioca, da Tijuca. Depois de algum tempo,
desconfiei que de vez em quando sumia o sotaque carioca. Perguntei sobre
a famlia e ela disse que havia mudado para Belm.

- Meu pai  milionrio. Tem umas dez fazendas no Par.

- Ele sabe que voc  garota de programa?

- Imagina! No pode saber de jeito nenhum, seno ele me mata.

- E por que voce comeou a fazer programas?

- Porque ele no queria que a filha caula fosse morar sozinha, brigou
comigo e me deserdou. A eu jurei que no pedia mais dinheiro para ele.

- E como foi o seu primeiro programa?

- Foi com um senhor. Eu estava supernervosa e comeei a chorar na cama. Mas
ele foi timo comigo, me pagou e ns nem transamos.

- Alguma vez voc ja gozou com um cliente?

- Imagina! Eu quase no transo com eles.

Apesar de dizer que faz em mdia oito programas por dia, Teresa contou
que no deixa que os clientes beijem demais seus seios, com medo que
caiam, nem permite sexo oral, com medo de Aids. Sexo anal, nem pensar.

Ela diz que procura fazer com que os clientes gozem antes da transa;
eles chegam excitados e ela s precisa de um provocante strip-tease.
Boa parte goza e  informada de que o programa terminou. Se querem
ir para a cama, ela cobra dobrado. A maioria vai embora depois de
15 minutos.

Teresa fazia muito menos perguntas que eu, mas de vez em quando
me surpreendia:

- No te incomoda isso que a gente faz?

- O que?

-  que na verdade a gente est vendendo o nosso corpo, no ?

Disse que s faz programas pelo dinheiro e quer parar logo:

- Eu s vou ficar na putaria por mais uns trs meses, depois vou abrir
algum negcio.

E explicou que no pra agora, imediatamente, porque no oonseguiu
se desligar do ex=namorado, Edu, um garoto de programas com quem transa
quase toda noite.

- S que em trs meses voc no vai resolver esse problema - falei.

- Como  que voce sabe?

-  que, pelo que voc conta, o Edu te come bem direitinho e voc
adora isso.  como se voc fosse viciada.

Ouviu meu diagnstico com uma expresso iluminada, e perguntou o que eu
achava que ela deveria fazer. Depois me elogiou e disse que queria
sair comigo outras vezes. Continuamos conversando por algum tempo.
Ela demonstrava claramente que no tinha amigos com quem pudesse conversar,
falar sobre sua vida, suas dvidas, seus problemas. Em nenhum momento
se lembrou de falar daquilo que havia sido o pretexto para o nosso
encontro: a formao de uma parceria de garotos de programa para atender
casais.

------ Este texto foi extraido da revista Marie Claire da Ed. Globo ------
FIM
