    Trecho do livro "Segredos da cozinha masculina"
    por Marcos Gonzales
    editado pela Editora Achiame, 1993  

  A cerimnia de casamento catlico, muito embora seja um
espetculo bonito, , de fato, um teatro. Tem a platia, o palco,
o texto, os coadjuvantes - no caso o padre, os padrinhos e o
noivo - e a estrela principal, a noiva. Tudo gira em torno dela.
As pessoas vo para v-la, o espetculo  para ela, a msica 
para ela. Isso me deixava um pouco chateado por um lado, mas
por outro, mostrava que quem tinha tirado a sorte grande fora
ela. O que  que o noivo teria para comemorar? O fim das farras
e da boemia? O fim das peladas s quintas?
  Vieram os padrinhos, em duplas, depois de uma intensa
polmica nos bastidores quanto  disposio e  entrada, se
homens pela direita ou se pela esquerda. Quando entraram,
estava tudo uma confuso s. Em seguida, adentrei ladeado por
minha me, acho que ningum percebeu.  Ainda bem, porque
devia estar ridcula a minha figura. Mal podia sorrir, pois a gola
e a gravata estavam de conluio contra meu pescoo, e
deixavam os msculos abaixo delas subirem para formar
sorriso. Sem falar no espartilho que me obrigaram a usar para
ficar mais elegante. O que ningum contava era com o tom
azulado de meu rosto, carente de oxignio, comprometendo o
conjunto.
  Havia muito que eu no entrava numa igreja. Nos ltimos
tempos, s comparecia a casamentos, No seria justamente no
meu que eu deixaria de ir. No gosto das missas da religio
catlica. Muito burocrticas. Nunca entendi a metade do que
se fala, "hosana nas alturas" e essas coisas. No acredito num
Deus que escreve certo por linhas tortas. Isso parece comigo
quando preencho cheque bbado.  um Deus muito carrasco,
que fica l de cima anotando quem peca e quem no peca. Tudo
 pecado, no final das contas. Nascer  pecado, tanto  que
somos batizados. Fazer amor  pecado. Crescei e multiplicai-vos,
mas sem transar.  um crime querer que uma criana
confesse seus pecados, como no caso da Primeira Comunho.
A nica coisa que se consegue com isto  introduzir uma noo
deturpada do que  o certo e o errado. Puro maniquesmo. Deus
para mim,  outro papo. Deus somos ns, as pessoas, e as coisas
que esto entre elas, o pensamento positivo, a natureza, a boa
vontade e o bom senso. Acho que um Deus extraterreno s
serve para expiar as culpas e aliviar os sofrimentos. Ora, mas
isso no  Deus, isso  remdio. Devemos brigar pelo que
somos hoje e gostaramos de ser, e no ficar pensando no
seremos aps a morte. lsso vale para todas as religies, que
disputam entre si quem est com a razo.  Como ningum sabe
nada sobre o que vir depois, o melhor que temos a fazer 
tentar viver da melhor forma que pudermos. Devemos correr
atrs de respeito e dignidade, mas com as nossas prprias
foras.
  Mame, insistindo em abandonar sua formao na fila, ainda
retirava o excesso de suor de minha testa com um leno e
penteava meu cabelo quando os primeiros acordes da orquestra,
que acordaram algumas velhas cochilantes, anunciaram a
chegada de Carolina. Pontualmente atrasada em meia-hora.
No sei quem foi que disse que as noivas sempre devem chegar
meia-hora atrasadas, mesmo que elas terminem de se arrumar
cedo. Quando a tradicional marcha nupcial de Mendelson
invadiu o ambiente, Carolina despontou na entrada da igreja,
deslumbrante. No arriscaria descrev-la detalhadamente.
Posso dizer, com segurana, que estava linda. Deixo tal tarefa
para as mulheres da platia, que no perderam tempo, a julgar
por suas caras e bocas e bocas, quanto  anlise completa dos trajes de
Carol. A maquilagem que estaria pesada, o "mise en plis" bem
trabalhado, o "pas de deux", o "champs Elise", no sei mais o quex.
De braos com seu pai e atrs de seu irmo inacreditavelmente
quieto como pagem, parecia nervosa. Carregava no rosto um
sorriso cravejado de dentes, que volta e meia era atingido por
um tique nervoso que lhe fazia tremer o lbio superior. As
cmeras de vdeo e fotografia se deliciavam com os passos
cuidadosamente ensaiados do trio. Ao receb-la, apliquei-lhe
um beijinho para deix-la mais  vontade.
  Quando a orquestra parou, o padre comeou a falar todas
aquelas coisas, as pessoas levantavam e sentavam feito um ioi
sob o som da Ave Maria de Schubert. Ele falava um portugus
bem carregado no italiano. Felizmente, era bastante sucinto nas
suas palavras, mesmo porque ningum entendia quase nada do
que dizia e a igreja estava um forno. Quando chegou  parte
confirmao, Carolina disse sim, mas na tninha vez, eu refu-
guei. Talvez fosse prudente pensar melhor. Isso at a Carol me
dar um belisco e eu dizer o meu sim. S brincadeirinha, para
desanuviar o ambiente.
  Chegamos  parte das alianas. O padre dizia e ns amos
repetindo. o. Eu. Pietro Mrio. Pedro Mrio. Prometo ser
fielo. Prometo ser fiel. etc. No final das contas, deveria aceitar
Carolina na pobreza, na doena, para o resto da vida... tudo
bem, mas se ela engordar muito feito sua me, a eu j no
garanto. As alianas. Esqueci as alianas! Mame, a senhora
no viu... Obrigado. Ela tomou minha mo e introduziu a
aliana. Eu tomei a sua, tirei a luva, que enganchou em minha
abotoadeira e que arrebentou quando puxei um pouco mais
forte. Coloquei a aliana. Podamos nos beijar. Levantei o vu
e abaixei-me para um selinho, mas a Carol mandou com lngua
e tudo. Fomos declarados marido e mulher, at que a morte
nos separasse. Cruzes. Antes ela do que eu. Minha me e Dona
Antnia se debulhavam em lgrimas. Demos as mos e fomos
saindo acompanhados de Carruagens de Fogo e padrinhos.
  Chovia a cntaros quando chegamos sob uma marquise que
protegia a entrada dn salo de festas. Foi ns pararmos ali para
formar uma fila de dois quilmetros.  Sinceramente, nunca vi
uma coisa mais chata do que fila de cumprimentos.   pior do que
derramar leite dentro da geladeira de madrugada. Mais inc-
modo que levar um pingo de ar-condicionado na cabea.  uma
estupidez tremenda, j que, depois de cumprimentarmos a
todos na fila, entramos para cumprimentar as mesmas pessoas,
que agora esto sentadas.
  Falei com gente que nunca vira como se fosse amigo ntimo.
O mesmo sorriso amarelo e um aperto de mo. Pior era a
Carolina, que tinha que beijar.  No final, meu brao direito no
queria mais retornar  sua posio original, e eu j queria sumir
dali. Carolina estava de humor ainda pior que o meu e o vestido
todo enlameado.
  Quando comecei a visitar as mesas, suando feito um porco
por estar o tempo todo sob a luz do vdeo,  que reparei nas
pessoas. Vestidos roxos brilhantes, penteados histrinicos,
"escarpins" arrochantes. Velhas de cabelos azulados, que eu nunca
vira na vida, me chamando pelo nome de meu pai, abismadas
com o meu tamanho, como eu havia crescido. "A senhora no
imaginaria quanto" - eu mentalizava, quase abrindo o zper e
mostrando o pnis. Mame falando pelos cotovelos sobre a
ex-empregada do vov Godofredo de cem anos atrs, da vizinha
da tia Maricotinha que batera as botas, das filhas do primo
Afansio que tocam violino, do concunhado da Maria de Lurdes
que queria muito conversar comigo sobre os episdios na
Somlia e os reflexos do novo ajuste fiscal na economia das
pequenas pizzarias. Dona Antnia vinha exorcizar as outras
mes cujas filhas no tinham casado grvidas nem os genros
tinham largado a faculdade e, por tudo isso, soltavam indiretas
e insinuaes. E ainda os amigos, dizendo que eu estava fodido,
com a corda no pescoo, que no tinha mais jeito, que a
baixinha era brava, e ex-colegas de trabalho ou faculdade
cobrando telefonemas meus, que eu nunca mais tinha dado as
caras, que eu tinha que aparecer, que devamos marcar um
churrasco com o pessoal. Para aturar tanta gente, s mesmo
bebendo um copo em cada mesa que chegava.
  Soou uma valsa e fomos atirados, eu e Carolina, para o centro
do salo danar.Nunca em toda minha vida tive a oportunidade de
danar uma valsa, mas sempre h uma primeira vez. Rod-
vaamos e dvamos pulinhos. Rodvamos e dvamos pulinhos.
Rodvamos e dvamos pulinhos. Carolina me levava. Eu dava
pulinhos, ela rodava. De vez em quando gritava por eu ter
pisado em seu p ou vestido. Fomos envolvidos por uma cortina
de gelo seco. A msica parou, por um instante, mas eu no
consegui. Estava completamente tonto e fiquei rodando feito
um peru ali no meio.
  Assim que consegui me estabilizar, avistei minha sogra gi-
rando e vindo em grande velocidade na minha direo. Olhei
para trs tentando localizar um foco de incndio ou algo pare-
cido que merecesse tamanha sncope. Minha esposa sussurrou-
me no ouvido que o que sua me pretendia era danar uma
valsa comigo. Minhas pernas ficaram bambas temendo o pior.
Por sorte, no meio do caminho o salto da mulher quebrou e ela
desapareceu na nuvem de fumaa que cobria o cho. Levaram
uma meia-hora para encontr-Ia. Levantou-se assustada e des-
cabelada, pois na queda perdera o toque que usava na cabea.
Mais meia-hora de buscas. As crianas se divertiam com tanta 
agitao. O homem do vdeo no perdia um segundo sequer
filmando tresloucadamente. Carolina comeou a chorar e foi
consolada por quinze mulheres.
Resolvemos eliminar a etapa das danas e fomos direto para
bolo. Antes, porm, Carol reuniu um monte de encalhadas
para lanar o buqu. Infelizmente, foi desatenta quando ningum
percebeu que havia uma janela aberta bem atrs dela. O buqu
foi parar na piscina do vizinho. Dizem eu no vi, que a Mirtes,
uma prima minha (e que maminha!) de trinta e quatro anos e
solteirona, pulou atrs. Mas teria errado a piscina.
Tiramos um monte de fotos na frente do bolo, s ns dois,
ns e os padrinhos, ns e meus pais, ns e os pais da Carol, ns
e os nossos irmos, nossos irmos e tia Maricotinha, tia Mari-
cotinha e as erianas, as crianas e meus... as crianas derru-
baram tia Maricotinha em cima do bolo, meu Deus! Sabia que
aquilo no ia dar certo. Detesto criana. Em festa ento, s bem
passada. Pulamos as fotos tambm e fomos logo cortar o bolo
e distribuir o champanhe. Fiquei com a ligeira impresso de
ter engolido um pedao dos culos da tia Maricotinha. Deduzi que
haviam esquartejado a pobre coitada junto com o bolo. Feliz-
mente. Tive um ataque de risos. Eu estava completamente
bbado e no me aguentava em p por mais nenhum minuto.
  Sabia que, enquanto no acabasse o chope, os convidados no
iriam embora e aquela festa iria se estender pela madrugada
adentro. As pessoas, quando vo a festas em geral onde sabem
que encontraro comida e bebida de graa, ficam sem almoar
e jantar uma semana antes. Parecem uns animais. Experimen-
tam todos os tipos de salgadinhos existentes, ficam cercando o
garon, mudando de mesa para encontr-lo novamente, pegam
mais de um fingindo estar levando para uma vov que no pode
se locomover. Vale tudo nessas horas. E no final, ainda recla-
mam que a comida estava fria e a bebida, quente.
  Chamei o irmo da Carol e prometi-lhe uma grana se ele
mijasse nos copos cheios de bebida. Mandou-me tomar no cu.
No falei que no se pode confiar nas crianas? So umas
pragas. Carolina perguntou se eu estava legal. Pedi a ela que
fssemos embora. Ningum ia perceber. Ela se negou veemen-
te. Que vexame seria. Vomitei em seu vestido branqui-
nho. De repente, ela concordou comigo. Fui levado a um
hospital para tomar glicose. Estava em estado de pr-coma
alcolica.  De l, levaram-nos para um hotel, onde passaramos
a noite.  Carolina com a maior tromba. No dia seguinte, parti-
ramos para So Loureno, em lua-de-mel.
  Fuder aquela noite, avisei logo, nem pensar.
