20. KUAN / CONTEMPLAO (A VISTA)

Acima:  SUN, A SUAVIDADE, VENTO.
Abaixo: K'UN, O RECEPTIVO, TERRA.

Uma pequena variao de acento d ao nome chins desse hexagrama um
duplo significado. Por um lado representa a contemplao, por outro o
fato de ser contemplado, de ser um exemplo, um modelo. Essas idias
so sugeridas pelo fato de o hexagrama poder ser relacionado com a forma
de um tipo de torre, muito freqente na China antiga. Do alto dessas
torres tinha-se uma ampla viso dos arredores e, por outro lado, quando
situada no cume de uma montanha, a torre era vista de longe. Assim, o
hexagrama mostra um dirigente que contempla, ao alto, a lei dos cus, e
em baixo, os costumes do povo. Graas a seu bom governo, ele se torna um
elevado exemplo e modelo para o povo.

Este hexagrama est relacionado com o oitavo ms (setembro-outubro) [26] 
A fora luminosa se retira e a escurido est novamente em ascenso.
Entretanto, esse aspecto no  relevante para a interpretao do
hexagrama como um todo.

Nota [26] Cf. nota 14 (hexagrama 11, PAZ). (Nota da traduo brasileira.)


*JULGAMENTO

CONTEMPLAO. A abluo j foi realizada,
mas ainda no a oferenda.
Confiantes, eles erguem o olhar para ele.

O ritual de sacrifcio na China comeava com uma abluo e uma libao,
com que se invocava a divindade. Em seguida se oferecia o sacrifcio. O
lapso de tempo entre as duas cerimnias  o mais sagrado, o momento de
suprema concentrao interior. Quando a devoo  sincera, inspirada
por uma f verdadeira, sua contemplao tem um efeito transformador e
inspira respeito naqueles que a presenciam. Na natureza tambm se
observa um rigor sagrado e grave que se manifesta na regularidade com
que se desenrolam todos os fenmenos. A contemplao do sentido divino
subjacente  ocorrncia de todos os fenmenos no universo d, ao homem
destinado a liderar os outros, meios para realizar efeitos semelhantes.
Para isso  necessrio a concentrao interior que a contemplao
religiosa desenvolve nos grandes homens, dotados de uma f poderosa.
Permite-lhes apreender as misteriosas e divinas leis da vida e, atravs
da mais profunda concentrao, chegarem a expressar essas leis em suas
prprias pessoas. De sua contemplao emana um poder espiritual oculto
que influencia e domina os homens, sem que eles estejam conscientes de
como isso ocorre.

*IMAGEM

O vento sopra sobre a terra: a imagem da CONTEMPLAO.
Assim os reis da antigidade visitavam as regies do mundo,
contemplavam o povo e o instruam.

Quando o vento sopra sobre a terra, alcana todos os recantos e a grama
inclina-se ante seu poder. Esses dois fatos encontram confirmao
nesse hexagrama. As duas imagens simbolizam  forma de agir dos reis da
antigidade. Por um lado, graas  viagens regulares, eles observavam
atentamente a vida de seu povo e nenhum costume em vigor lhes passava
desapercebido. Com isso, exerciam, por outro lado, a influencia
necessria para mudar os hbitos inconvenientes.

Tudo isso indica o poder de uma personalidade superior. Um tal homem
ser capaz de perceber os verdadeiros sentimentos da grande massa da
humanidade e por isso no poder ser enganado. Por outro lado, ele
exercer sua influencia atravs da mera presena, e o impacto de sua
personalidade far com que todos sejam por ele orientados, assim como a
grama pelo vento.

*LINHAS

*1-6
Seis na primeira posio significa:
Contemplao pueril.
Para um homem inferior, nenhuma culpa.
Para um homem superior, humilhao.

Isso significa uma contemplao a distncia, sem compreenso. H um
homem influente, mas sua atuao no  compreendida pelas pessoas
comuns. Isso no tem grande importncia em relao s massas, pois so
beneficiadas pela ao do sbio governante, mesmo sem compreende-lo.
Mas, para o homem superior, isso  uma desgraa. Ele no deve
satisfazer-se com uma contemplao superficial e irrefletida das foras
dominantes; deve contempl-las em conjunto, e procurar compreende-las.

*2-6
Seis na segunda posio significa:
Contemplao atravs de uma brecha na porta.
Favorvel  perseverana de uma mulher.

Atravs de uma brecha na porta se tem uma viso restrita. Olha-se de
dentro para fora. A contemplao  limitada subjetivamente. Um homem
relaciona tudo a si mesmo e  incapaz de se colocar no lugar do outro e
compreender os motivos de sua ao. Isso  apropriado a uma boa
dona-de-casa, que no precisa entender dos assuntos do mundo. [27] Para
um homem que tem de atuar na vida publica, este modo egosta e limitado
de ver as coisas  evidentemente nefasto.

Nota [27] Nessa passagem, ao referir-se a mulher, parece-nos que a
interpretao de Wilhelm sucumbe  identificao do contedo do smbolo
com a sua forma. Mas, com isso, o smbolo deixaria de ser smbolo.
Para respeitar-lhe a propriedade, seria necessrio, em virtude do
carter meramente evocativo da forma, buscar transcend-la para
encontrar antes o contedo que ela desvelaria justo na medida em que o
velasse. Assim, a mulher no seria seno a forma evocativa de um
contedo, este sim, parte da essncia mesma do texto. Mas para a com-
preenso dessa frase em que se faz a referencia  mulher  necessrio
remontar  frase anterior, analisando o texto como um todo. A
contemplao atravs da brecha da porta representaria uma limitao de
perspectiva, porm no no sentido de uma viso deficiente. Se o fosse seria
difcil explicar a frase subseqente, "favorvel  perseverana da mulher".
A explicao de que tal perspectiva seria "apropriada a uma boa
dona-de-casa, que no precisa entender dos assuntos do mundo", 
inconvincente e, no mnimo, bastante depreciativa quanto  condio da
mulher. A brecha na porta afirma, isto sim, a limitao intrnseca a
todo juzo uma vez que, por sua prpria natureza, se constri sempre a
partir de um conjunto restrito e no ilimitado de dados. Mas isto no
invalida os juzos, apenas atenta  sua especfica esfera de
pertinncia. A verdade, no plano gnoseolgico, seria sempre relativa
aos dados a partir dos quais o juzo se constri, e esses dados so
sempre limitados. No interior desses limites os juzos so vlidos e se
pode inferir sua correo pela coerncia e adequao de suas dedues.
E' ento essa a razo pela qual " favorvel a perseverana da mulher".
Isto e, uma vez que o feminino representa a terra, o mbito do
Receptivo, refere-se ao que possui limites,  forma, em contraposio
ao masculino, o cu, o mbito do Criativo, que se refere 
transcendncia dos limites, e no  forma. (Nota da traduo
brasileira.)

*3-6
Seis na terceira posio significa:
A contemplao de minha vida
decide entre progresso ou retrocesso.

Este  o ponto de transio. Aqui o homem j no olha mais para fora,
para receber imagens limitadas e confusas, porm dirige a contemplao a
si mesmo em busca de orientao para suas decises. Essa introspeo
representa a superao do egosmo ingnuo daquele que v a tudo de seu
prprio ponto de vista. Ele comea a refletir e com isso se toma
objetivo. Porm, o autoconhecimento no consiste em algum se ocupar dos
seus prprios pensamentos; , isto sim, voltar-se para as conse-
qencias do que criou. E somente atravs dos efeitos resultantes de sua
vida que uma pessoa pode julgar se o que realizou significa progresso ou
retrocesso.

*4-6
Seis na quarta posio significa:
Contemplao da luz do reino.
 favorvel exercer influencia
como convidado de um rei.

Isso descreve um homem que conhece os segredos do que faz um reino
florescer. Tal homem deve ser colocado numa posio de autoridade em
que possa exercer influencia. Ele deve ser como que um hspede, isto ,
deve ser reverenciado e deixado livre para agir com independncia, e no
ser usado como um instrumento.

*5-9
Nove na quinta posio significa:
Contemplao de minha vida.
O homem superior est livre de culpas.

Um homem que ocupa uma posio de autoridade, para o qual os outros
erguem o olhar, deve estar constantemente disposto a analisar-se. Porm,
o correto modo de examinar-se no consiste numa passiva meditao sobre
si mesmo e sim na anlise dos efeitos que se produziram. Somente quando
esses efeitos so benficos e quando se tem uma boa influencia sobre os
outros  que a contemplao da prpria vida trar ao homem a satisfao
de se saber livre de erros.

*6-9
Nove na sexta posio significa:
Contemplao da sua vida.
O homem superior est livre de culpas.

Enquanto a linha anterior representa um homem que se contempla a si
mesmo, aqui, na posio mais elevada, est excludo tudo o que  pessoal
e relacionado ao ego. Assim se tem a imagem de um sbio afastado dos
assuntos do mundo. Liberto de seu ego, ele contempla as leis da vida, e
reconhece que saber se manter livre de culpas  o supremo bem.
