Introduo ao uso oracular do Livro das Mutaes

                O texto a seguir foi resumido a partir do
                Prefcio  Edio Brasileira do Livro das Mutaes 
                gerado por seu tradutor, Gustavo Alberto Corra Pinto.
                que realizou o trabalho a partir do original de 
                Richard Wilhelm, do alemo para portugus.

                Como todo resumo, tem um certo grau de parcialidade.
                Um exemplo disso, foi a remoo do trecho que explica
                as desvantagens do mtodo de moedas , base do ICHING 
                computadorizado) em relao ao mtodo de consulta 
                com caules de mileflio, e das explicaes sobre os 
                rituais chineses de consulta, que permitiam um mergulho
                extremamente profundo nos problemas consultados.

                Estou consciente disso, mas a idia aqui  apresentar
                num texto simples as idias principais, relevantes
                ao uso programa I CHING verso VOX.

                                                Antonio Borges

O que hoje conhecemos com o nome de I Ching, o Livro das Mutaes,
surgiu no perodo anterior  dinastia Chou (115-249 A. C.), com figuras
lineares, compostas de linhas inteiras e linhas interrompidas,
superpostas em conjuntos de trs e seis linhas, chamados "Kua" (signo),
hoje conhecidos como trigrama e hexagrama.  A sabedoria contida nos
Kua veio a exercer uma influncia decisiva nos rumos  futuros da
civilizao chinesa.

O Livro das Mutaes tem sido utilizado como orculo, na China, desde a
Antigidade. No Ocidente, seu uso oracular tem despertado um interesse e
fascnio excessivos.  Lamentavelmente, toda sorte de abusos e erros tem
se acumulado, em virtude dessa  viso parcial e distorcida. O I Ching
no  apenas (nem primordialmente) um orculo.  Ele  'tambm' um
orculo.

E essa sua faceta , inclusive, quase irrelevante se confrontada com a
riqueza da sabedoria contida nos Kua. O uso oracular do livro
corresponde apenas a uma fase, digamos, primria, quando ainda no
sabemos aplicar por ns mesmos, s nossas vidas, os princpios
desvelados pelas figuras lineares, por no conseguirmos enxergar as
correspondncias existentes entre os Kua e todos os fenmenos.

A formulao da pergunta tem um papel decisivo no xito ou no fracasso
da consulta (no sentido da compreenso ou no da resposta obtida). O
orculo, segundo a tradio chinesa, nunca falha. Suas respostas so
sempre claras e precisas; porm o nosso entendimento , muitas vezes,
turvo e confuso. O orculo sempre mostra o que ; ns, entretanto,
muitas vezes no conseguimos ver o que ele nos mostra, pois no queremos
ou no sabemos ver. Todas as barreiras e obstculos  compreenso da
resposta esto em ns e no no orculo. Enquanto manifestao do incons-
ciente, o orculo usa a linguagem simblica, que  prpria daquele, e
no o discurso racionalizado que o consciente habitualmente articula.
Para que o significado se aclare, teremos de aprender o modo de
concatenao dessas imagens simblicas, ao invs de insistimmos em
tentar decodific-las segundo padres que Ihes so estranhos.

A primeira grande dificuldade que enfrentamos  saber com clareza e
preciso o que buscamos. S quem sabe o que procura pode encontrar. Na
formulao da pergunta, explicitamos para ns mesmos o que estamos
buscando. A correta formulao da pergunta implica na sua adequao ao
propsito que  a finalidade do prprio orculo, ou seja, auxiliar o
homem na busca da verdade, na busca de si mesmo, j que  em si mesmo
que o homem h de encontrar as respostas. A consulta oracular, no sentido
exato da expresso, no  outra coisa seno a busca do que , na
transcendncia do que parece ser. A pergunta que busca o que , que
procura o real para alm do aparente, possui a reta inteno. Ora, o eu,
a personalidade consciente de si enquanto individualidade isolada, 
em ns apenas uma aparncia transitria. Tudo, portanto, o que diz
respeito aos propsitos, interesses, ambies ou anseios do eu, no
passa de fugaz iluso, no  seno o que deve ser superado.

O orculo no  uma mquina de informaes, mas um ser vivo, que encerra
a suprema sabedoria e compaixo. Aproximarmo-nos dele requer humildade,
sinceridade e ardor. S sabiamente caminhando se pode chegar 
sabedoria. Ela  seu prprio requisito.  a sabedoria que nos conduz 
sabedoria. Realiz-la  possvel, to-somente porque j a possumos,
desde todo sempre, em ns mesmos.

Ao lado da inteno correta, supe-se a forma correta. Isso significa
estarmos aptos a dar expresso de modo claro, inequvoco, sinttico e
preciso ao que procuramos. A pergunta formulada de modo ambguo ou
vago evidencia uma viso turva e confusa do que se busca, e resulta na
incapacidade de se reconhecer aquilo que no se sabe ser o objeto da
busca.

Uma pergunta no deve, tambm, ter mais de um significado visado. Se,
numa questo, esto envolvidos dois ou mais temas, deve-se subdividi-la
em tantas perguntas quantos forem os ncleos de significado
intencionados. Assim, cada pergunta deve indagar por uma nica coisa. O
carter sinttico da formulao  tambm muito importante.

Na concepo chinesa, o que de fato se sabe deve-se poder expressar em
poucas palavras. Quando se precisa falar muito para se dizer algo, 
porque ou o saber ainda no alcanou sua plena maturidade, ou se est
dissimulando, o que significa  que se est procurando evitar que se faa
o saber. A dissimulao  a ignorncia  que procura perpetuar a
ignorncia. "A sabedoria de um pensador se mede pela  sua capacidade de
dar um exemplo", diz a mxima chinesa. O exemplo  uma  sntese
simblica de toda uma idia ou mesmo de um complexo de idias. Antes  da
consulta ao orculo, a pergunta deve ser lapidada, cada aresta de
impreciso  aparada, at que se chegue ao ponto em que s o ncleo
essencial brilhe, claro  e solitrio.

Aos que estiverem lendo o I Ching pela primeira vez: no se deixem
esmorecer  diante do que lhes parea demasiado obscuro. H de
aclarar-se, pois no h noite que dure para sempre.  nesse esforo que
se pode aprender a virtude da perseverana, to enfatizada no Livro das
Mutaes.

Ao relermos o I Ching,  necessrio e recomendvel que estejamos atentos
ao perigo do que julgamos demasiado claro. Os dias tambm findam e o
destino de todo saber  conduzir-nos ao no-saber. O estudo do I Ching 
um trabalho constante, no qual, mais que um acmulo de conhecimento, se
processa uma crescente conscientizao do ignorado.
